sábado, 29 de março de 2014

Índios isolados no Acre seriam pressionados por exploração de madeiras

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29/03/2014                        10:30

Do UOL, em São Paulo

 Índios que não têm contato com o mundo externo veem um avião que sobrevoa sua comunidade na Amazônia, perto do rio Xinane, no Acre, perto da fronteira com o Peru. Os líderes da tribo Ashaninka, que divide o território com esta tribo e outras que também são isoladas, teriam pedido ajuda ao governo e a ONGs para controlar o que eles consideram ser uma invasão por essas tribos de suas terras. O movimento das tribos seria forçado pela exploração madeireira ilegal na fronteira com o Peru. As fotos foram feitas em 25 de março de 2014


Índios que vivem isolados na Floresta Amazônica estariam sofrendo com a exploração de madeira ilegal na fronteira do Acre com o Peru, informou a agência Reuters, nesta sexta-feira (28). 

Estas tribos que vivem sem contato com o mundo externo teriam que se mover pela pressão dos exploradores. Segundo a agência, líderes da tribo Ashaninka, que divide território com esta tribo e outras que também são isoladas, pediram ajuda ao governo e a ONGs para controlar o que eles consideram ser uma invasão de suas terras. 

As fotos, de 25 de março de 2014, foram feitas sem a autorização da Funai (Fundação Nacional do índio), segundo a assessoria de imprensa do órgão. A assessoria diz que seu departamento jurídico irá processar a agência pelo sobrevoo sem autorização e destaca que locais onde vivem índios sem contato com o mundo externo não são divulgados pela entidade exatamente para respeitar o desejo do indígena de se manter isolado. A Funai tem registro de cerca de 70 grupos de índios isolados na região da Amazônia. 



Nesta área na Terra Indigena Kampa e Isolados não há registro de exploração ilegal de madeira, diz o órgão. A presença de madeireiros peruanos no Parque Nacional Alto Purus e em reservas territoriais criadas para a proteção dos isolados forçou, em 2007, a migração de um grupo de isolados para as cabeceiras do igarapé Xinane, na Terra Indígena Kampa e Isolados do rio Envira, do lado brasileiro. 

É comum os índios de tribos isoladas saquearem casas de outras tribos e de seringueiros e agricultores que vivem no entorno de terras indígenas. A Funai, para evitar os saques e possíveis conflitos, realiza sobrevoos das áreas das tribos isoladas e lança machados e outros utensílios.

 Políticas de proteção 

Na última segunda-feira (24), foi formalizada, em Lima, no Peru, uma cooperação entre a Fundação Nacional do Índio e o Ministério de Cultura peruano para a proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas isolados e recém-contatados que vivem nas regiões de fronteira dos dois países. 

Ao longo deste ano, equipes especializadas deverão realizar sobrevoos e expedições na mata nessas regiões, a fim de sistematizar informações que permitam compreender as dinâmicas territoriais desses povos, bem como as pressões externas e vulnerabilidades a que estão sujeitos.

Em 2009, a Funai e o governo do Acre ampliaram a política de proteção a grupos indígenas não contactados, como são chamadas as tribos isoladas. Incursões realizadas pelo órgão em 2008 e 2009 ao alto rio Envira confirmaram que há uma intensa movimentação de índios isolados na fronteira do Brasil, no Estado do Acre, com o Peru. 

A população dos isolados, estimada pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, dobrou nos últimos anos por conta, principalmente, da demarcação de terras indígenas e da política de proteção. Em 2004, o próprio sertanista foi flechado no rosto, provavelmente por índios temerosos dos brancos que neles atiravam de espingarda durante caçadas na mata. 

Desde esse episódio, as políticas oficiais de proteção permitiram que a população dos três grupos de isolados identificados subisse para pelo menos quinhentos índios em 2009. Um quarto povo, caçador e nômade, os Mashco-Piro, percorre amplas extensões da floresta em ambos os lados da fronteira e, no verão, costuma acampar em pequenos tapiris nas praias para coletar ovos de tracajá. 

Quem são os isolados? 

De acordo com a Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII), da Funai, encontrou na época das incursões pelo menos 60 evidências de índios isolados, como são chamados aqueles índios que ainda procuram manter distância das ameaças representadas por diferentes atividades econômicas. Localizados em sua grande maioria na região amazônica, não sabe se ao certo quem são, onde estão, quantos são e que línguas falam.

No Acre, os três grupos que habitam permanentemente no alto rio Envira são provavelmente falantes de idiomas do tronco linguístico Pano. Sem contar os Mashco-Piro, já são pelo menos quinhentas pessoas vivendo em dez malocas (conjunto de cabanas) estabelecidas em diferentes aldeias. Esta pode constituir uma das maiores populações de isolados na Amazônia brasileira e em todo o planeta. 

Os principais agrupamentos de malocas estão localizados nas cabeceiras dos igarapés Xinane e Riozinho, afluentes do rio Envira, e na cabeceira do igarapé Paranazinho, afluente do rio Humaitá. As principais malocas estão distantes a mais de 100 quilômetros umas do outro, o que pode indicar de que se trata de povos diferentes. 

Os isolados vivem hoje em três terras indígenas demarcadas pela Funai (TI Alto Tarauacá, TI Kampa e Isolados do Rio Envira, e TI Riozinho do Alto Envira), com extensão agregada de 627 mil hectares. Outras seis terras indígenas e o Parque Estadual Chandless são também usados pelos isolados para caçar, pescar e extrair vários produtos da floresta.

sábado, 22 de março de 2014

Indígenas Yanomami participam pela primeira vez de seção eleitoral em RR

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22/03/2014              17:13

Do G1 RR

Serviço possibilita que a população exerça a cidadania e inclusão política. Seções compreendem os municípios de Amajarí, Uiramutã e Normandia.  

Urna eletrônica (Foto: Erico Andrade / G1)
Urnas eletrônicas serão instaladas em locais definidos entre TRE e Funai (Foto: Erico Andrade / G1)

A dificuldade de acesso à áreas indígenas de Roraima motivaram tuxauas Yanomami a solicitarem ao Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR), a criação de locais de votação nesta região, o que foi atendido. 

Para o presidente em exercício do TRE-RR, desembargador Mauro Campello, isso é um marco na história da Justiça Eleitoral do estado. "Essa é uma oportunidade ímpar de inclusão do povo indígena em todo processo eleitoral, pois a dificuldade que eles têm para se dirigir à urna é muito grande devido à geografia. 

Alguns andam em torno de dois e até três dias para conseguir votar. Com uma seção eleitoral mais próxima, eles poderão exercer a sua cidadania com mais facilidade", disse. 
O coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em Roraima, André Vasconcelos afirmou que a iniciativa vem proporcionar mais comodidade aos eleitores indígenas. 

"Com toda certeza, a instalação de novas seções eleitorais nas regiões que compreendem os municípios de Amajarí, Uiramutã e Normandia e, principalmente, na área indígena Yanomami, irá falicitar o acesso dos índios à urna eletrônica", ressaltou.

Seções eleitorais 

Ao todo, existem 1.062 seções distribuídas em oito zonas eleitorais. Com exceção das 1ª e 5ª zonas, localizadas em Boa Vista, todas as outras atendem os eleitores do interior. 

A criação de novas seções irá firmar o compromisso do TRE-RR em disponibilizar todos os serviços da Justiça Eleitoral aos locais mais distantes do eEstado, possibilitando que a população possa exercer de fato a sua cidadania e inclusão política

sábado, 1 de março de 2014

Série sobre indígenas de Mato Grosso do Sul é selecionada para festival da Bahia

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01/03/2014                     22:27

 Elverson Cardozo


Imagem captada na aldeia YPoi, em Paranhos. (Foto: Everson Tavares)
Imagem captada na aldeia YPoi, em Paranhos.    (Foto: Everson Tavares)

  Foi na graduação que o jornalista Everson Tavares, de 22 anos, teve contato com os movimentos em defesa das minorias e passou a se interessar pela realidade dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul. Apaixonou-se pelo tema e, ainda estudante, aprofundou-se na discussão que, no final do curso, resultou em um webdocumentário como Trabalho de Conclusão de Curso.

Divida em cinco vídeos, a série “Tekohá – os filhos da terra”, que recebeu nota dez da banca examinadora da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chegou à Bahia e agora está entre os 50 trabalhos selecionados para a mostra competitiva do 16ª Festival Nacional 5 Minutos, realizado pela Funceb, a Fundação Cultural daquele Estado. 

Sem tema definido, a ação, que incentiva a experimentação, produção e difusão do audiovisual no Brasil, é uma grande vitrine para o produto, que, assim como os outros, terá projeções em bares e prédios de valor arquitetônico. 

Everson é o único representante de Mato Grosso do Sul selecionado para a mostra. Dos cinco “episódios” que compõem o webdocumentário, apenas dois foram enviados à comissão organizadora: “Os filhos da terra”, sobre a territorialidade, e “Caminho Natural”, que fala das crianças Guarani Nhandeva. 

O terceiro, “Nhandeci Rezadora”, está na suplência. “Ainda pode entrar”, explicou. Os depoimentos que sustentam os registros foram gravados em Campo Grande, mas as “imagens de apoio” foram captadas na aldeia YPoi, em Paranhos, a 469 quilômetros de Campo Grande. 

Formado em jornalismo, Everson se encontrou na fotografia. (Foto: Cadu Modesto Flhur)
Formado em jornalismo, Everson se encontrou na fotografia.  (Foto: Cadu Modesto Flhur)

 “Fiquei cinco dias nessa área, que é de retomada. Ainda tem certo conflito com os fazendeiros. Fui como o pessoal do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Lá eu coletei os ensaios fotográficos e audiovisuais”, contou, ao comentar que, na edição, aliou a fotografia e o vídeo. Dos 259 inscritos, de todas as regiões do Brasil, 50 foram selecionados, mas apenas quatro serão premiados, disse.

O primeiro lugar receberá R$ 12 mil, o segundo R$ 10 mil e o terceiro R$ 8 mil. Everson está orgulhoso por contribuir com as “discussões das terras no Estado” e feliz por ver, mesmo em outro Estado, a valorização do audiovisual produzido em Campo Grande. “Mato Grosso do Sul, embora tenha uma tradição cinematográfica, não costuma exportar suas mídias”, afirmou. 

 Confira os três vídeos enviados:
















quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Solução definitiva para conflito em Sidrolândia fica para o mês de junho

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27/02/2014                    19:30

 Lidiane Kober e Leonardo Rocha

Assessor do Ministério da Justiça e governador fecharam cronograma para fechar compra de 31 fazendas (Foto: Cleber Gellio)
Assessor do Ministério da Justiça e governador fecharam cronograma para fechar compra de 31 fazendas  (Foto: Cleber Gellio)

 Somente um ano após a morte do indígena Oziel Gabriel, deverá sair solução definitiva para o conflito por terra na Reserva Buriti, em Sidrolândia. Nesta quinta-feira (27), em reunião na Governadoria, autoridades e produtores rurais fecharam cronograma de ações e definiram 6 de junho como prazo final para efetivar a compra de 15 mil hectares. 

A pedido dos fazendeiros, o assessor do Ministério da Justiça, Marcelo Veiga, deu mais 30 dias para apresentar contraproposta. O Governo Federal ofereceu R$ 78 milhões pelas 31 propriedades da região, mas os produtores reivindicam pelo menos R$ 150 milhões. “Se o valor for comprovado por laudos e documentos, vamos pagar” disse Veiga. 

De acordo com o cronograma, os fazendeiros terão até 6 de abril para apresentar a contraproposta, acompanhada de laudos. Depois, o Incra (instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e a Funai (Fundação Nacional do Índio) terão até 6 de maio para analisar o pedido dos produtores. “De 6 de maio a 6 de junho, teremos para bater o martelo e homologar em juízo a compra”, acrescentou o assessor do ministério. 

Para ele, a decisão de conceder mais prazo foi salutar. “Assim, vamos evitar contestações”, explicou. Veiga destacou ainda que o modelo de negociação será usado para resolver impasse nas demais regiões de conflito do Estado. Presente na reunião, o governador André Puccinelli (PMDB) frisou que o governo entrou na discussão e pediu o encontro de hoje a pedido dos produtores. “Eles se sentiram excluídos da negociação”, contou. 

O chefe do Executivo estadual ainda colocou técnicos da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) à disposição dos fazendeiros e do Governo Federal e intimou a União a cumprir a promessa de pagar pelas terras o valor correto. “Se houver provas, vão ter que pagar mais”, afirmou. 

 O conflito

 Com 35 anos, Oziel morreu dia 30 de maio do ano passado, durante a operação de reintegração de posse da Fazenda Buriti, que estava ocupada por índios terena desde o dia 15 daquele mês. 

Eles se negavam a deixar a propriedade, sob alegação de que a área é indígena. O proprietário da fazenda, Ricardo Bacha, conseguiu que a Justiça concedesse a reintegração, que foi cumprida pela Polícia Federal, com reforço da Cigcoe. 

O conflito durou cerca de oito horas e outros cinco terenas ficaram feridos, quatro homens e uma mulher.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desnutrição matou 491 crianças indígenas desde 2008

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24/02/ 2014                  13:36

Agência BBC Brasil




Perto de completar dois anos de idade, Júlio César já deveria falar, brincar e caminhar sozinho. O bebê, porém, é tão frágil quanto um recém-nascido. Com 5 kg e desnutrição crônica, Júlio César tem perdido cabelo e exibe manchas na pele. 

O quadro do bebê - um índio xavante - é tão grave que, mesmo monitorado por uma nutricionista desde o início do ano, ele rejeita qualquer alimento exceto o leite materno e não consegue ganhar peso. O pediatra Lásaro Barbosa, que internou Júlio César no hospital de Água Boa, em Mato Grosso, explica que casos como o dele são comuns entre índios da região. Segundo o médico, a partir do quarto ou quinto mês de vida de uma criança é preciso ensiná-la a comer para que aos poucos deixe de depender do leite materno.

"Mas se falta comida ou o alimento é de baixa qualidade, e às vezes as duas coisas ocorrem nas aldeias, os bebês não desenvolvem esse aprendizado na hora certa". E quando o leite da mãe já não basta, diz Barbosa, os bebês que não se alimentam por outras fontes podem ficar com sequelas para sempre ou até morrer. Um levantamento da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) obtido pela BBC Brasil com base na Lei de Acesso à Informação expõe a gravidade do fenômeno. Os dados mostram que, desde 2008, 419 crianças indígenas de até 9 anos morreram no Brasil por desnutrição. 

O número representa 55% de todas as mortes por desnutrição infantil registradas no país no período, embora os índios sejam apenas 0,4% da população. As estatísticas nacionais sobre mortes por desnutrição constam do sistema Datasus, o banco de dadosdo SUS (Sistema Único de Saúde). "Essas mortes são inaceitáveis", diz o professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Douglas Rodrigues, que atua com saúde indígena há 40 anos. Segundo ele, os óbitos poderiam ser evitados com ações básicas de saúde nas aldeias, para que casos de crianças com baixo peso sejam detectados e tratados rapidamente. "É preciso conversar com as mães, entender por que eles não ganham peso e orientá-las sobre amelhor forma de agir." 

No entanto, por causa da falta de intérpretes, a comunicação entre índios e agentes de saúde é umgrande problema em muitas áreas do país, conforme ilustrado pelo caso do próprio Júlio César. Como os pais do bebê falam apenas xavante e não havia intérpretes no hospital, o médico não pôdefazer perguntas para saber por que o menino estava desnutrido nem instruir o casal sobre o tratamento. 

Segundo a Sesai, órgão subordinado ao Ministério da Saúde encarregado pela saúde dos índios, a região de Júlio César é a área do país com mais mortes por desnutrição entre indígenas. Os dados mostram que, desde 2008, 162 crianças morreram por essa causa no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Xavante.  

O distrito, que abarca cerca de 20 mil índios, é uma das 34 subdivisões da Sesai criadas conforme a distribuição de grupos indígenas pelo país. Os casos se concentram nas mais de cem aldeias no entorno da cidade de Campinápolis, no leste de Mato Grosso. Outrora coberta por florestas, a região hoje é cercada por fazendas de gado e soja. Líderes indígenas e especialistas atribuem a alta incidência de desnutrição à mudança na alimentação dos índios nas últimas décadas. As numerosas mortes, no entanto, são atribuídas a falhas no atendimento de saúde nas comunidades. 

O acesso às aldeias é feito por precárias estradas de terra. Trajetos de algumas dezenas de quilômetros podem levar horas a serem percorridos. A Sesai dispõe de veículos 4X4 para atender emergências nas aldeias. Índios queixam-se, no entanto, da velocidade dos resgates e dizem que muitas crianças só são atendidas quando sua saúde já está comprometida. "Mando buscar uma viatura na cidade às 7h (da manhã) e o carro só chega aqui às 5, 6 da tarde, quando a criança já está morta", diz à BBC Brasil João Tserept, cacique da aldeia Santa Rosa. Ele diz que quase perdeu um neto por causa da lentidão no resgate. 

Segundo Tserept, equipes de saúde visitam a comunidade no máximo uma vez por mês e são integradas apenas por enfermeiros. Como as visitas são raras e curtas, diz o cacique, priorizam-se os casos mais graves. Pacientes com doenças crônicas também ficam desassistidos. Sebastiana Wautomoaiudo, de 86 anos, diz ter começado a sentir um grande calor nas pernas há mais de uma década. Nos últimos anos, passou a ter dificuldades para respirar à noite. Ela afirma que jamais viu um médico na vida. Segundo as diretrizes da política nacional de saúde indígena, índios com problemas simples de saúde deveriam ser atendidos dentro das aldeias. Muitas aldeias, porém, não têm postos de saúde nem medicamentos. 

O cacique João Tserept diz que, nas últimas semanas, só tem recebido o remédio Nistatina, normalmente receitado para o tratamento de infecções vaginais por fungos. "Será que ele cura doença de febre, de pneumonia, doença de ferida, de dor de cabeça? Tudo isso é enganação." Sem atendimento adequado nas aldeias, muitos pacientes iniciam um périplo até finalmente serem tratados. Acompanhados por parentes - já que, quando um índio adoece, é como se toda a família adoecesse -, eles vão primeiro a postos de saúde próximos às comunidades que contam com equipe fixa de enfermeiros. 

Quando os casos não são resolvidos, são levados para a Casai (Casa de Apoio da Saúde Indígena) de Campinápolis, responsável por alojá-los e encaminhá-los a hospitais públicos. Como o hospital local tem poucos leitos e equipamentos, alguns acabam transferidos para a unidade de Água Boa ou até para Goiânia, a 700 quilômetros dali. Muitos morrem entre uma escala e outra. É comum ainda que, desestimuladas pelo mau atendimento, famílias resolvam voltar à aldeia com o parente doente antes de sua recuperação. A situação da Casai é uma das maiores fontes de reclamações.

A BBC Brasil esteve no local, uma casa onde até 80 pessoas dividem poucos cômodos com colchões mofados. Índios disseram que, em vez de se recuperar, alguns pacientes pioram por causa das más condições do alojamento. Gestores locais da Sesai que não quiseram ser identificados disseram que a situação melhorará com a entrega de um novo alojamento, prevista para maio. Eles atribuem os problemas na assistência aos índios à burocracia, como as regras para licitações, e ao despreparo dos profissionais que atendem índios nas aldeias e hospitais locais. 

Afirmam, contudo, que os serviços deverão melhorar com a chegada de uma médica cubana do Programa Mais Médicos, recém integrada à equipe de saúde da região. Desde o fim de janeiro, a BBC Brasil espera a resposta a um pedido de entrevista com o secretário Especial de Saúde Indígena, Antônio Alves, para tratar das informações que embasam esta série de reportagens. 

Questionamentos à secretaria sobre as mortes de crianças e as ações para combatê-las foram ignorados, apesar de numerosos e-mails e telefonemas. A BBC Brasil ainda tentou tratar dos temas com o novo ministro da Saúde, Arthur Chioro, e com o ex-ministro Alexandre Padilha, responsável pela pasta entre 2011 e o início deste ano. Os pedidos de entrevista foram igualmente recusados. 

Roça e caça 

Mesmo que o atendimento médico aos índios melhore, o padre xavante Aquilino Tsirui'a diz que solução definitiva para os casos de desnutrição exige um resgate dos hábitos alimentares tradicionais dos indígenas. Ele afirma que a transformação na alimentação dos xavantes nas últimas décadas foi estimulada, de um lado, pelo abandono de práticas agrícolas e pela menor oferta de caça nas terras indígenas, hoje cercadas por áreas desmatadas; de outro, pelo crescente ingresso de dinheiro nas comunidades via aposentadorias, salários e benefícios sociais. Os índios passaram a comprar comida nos mercados das cidades vizinhas. A mandioca e o milho deram lugar ao arroz; a carne de caça, a biscoitos e refrigerantes. A dieta hipercalórica e pobre em nutrientes fez explodir, entre os adultos, a obesidade e o diabetes; entre as crianças, a desnutrição. Tsirui'a cobra a Fundação Nacional do Índio (Funai) a estimular o resgate das roças nas aldeias, por meio de campanhas de conscientização e apoio técnico. Ao lado do padre Bartolomeo Giaccaria, ele tem distribuído entre os índios sementes de variedades de mandioca e milho que estavam em vias de desaparecer.

O trabalho, diz ele, já começa a surtir efeitos em algumas aldeias. 

 Mudanças semelhantes na alimentação dos índios - com efeitos correspondentes na saúde - têm ocorrido em outras áreas do país. O professor da Unifesp Douglas Rodrigues tem coordenado visitas a aldeias na região do Xingu, entre o Mato Grosso e o Pará, para alertar os índios sobre os riscos dos novos hábitos alimentares. "Eles tinham uma dieta muito boa, mas mudaram e pegaram um pedaço da nossa dieta que é ruim. Dizemos a eles que, se vão mudar, têm que pegar os lados bons também, como consumir mais verduras e legumes". Enquanto não se resolve o problema alimentar, diz Rodrigues, deve-se monitorar as crianças desnutridas para garantir que se recuperem. "Não se pode perdê-las de vista", diz. Duas semanas após a visita da BBC Brasil, no entanto, as equipes de saúde perderam o contato com a família de Júlio César. O médico Lásaro Barbosa diz que, após o menino ganhar 1 kg, lhe deu alta e recomendou que ficasse na Casai até se recuperar plenamente. A Casai informou, porém, que após passar quase dois meses longe da aldeia e sem notar grandes avanços no quadro do bebê, a família resolveu deixar o local. A nutricionista da Casai Adriana Umutina explica a decisão: "Eles cansaram de esperar."

sábado, 22 de fevereiro de 2014

DIREITOS HUMANOS: Deputado estadual Laerte Tetila - PT/MS participa da audiência da Comissão da verdade que ouve indígenas em Dourados - MS

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22/02/2014               14:48

Assessoria





O deputado Laerte Tetila participou  da Audiência “Violação dos Direitos Indígenas, realizado na UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados. 

Na Assembleia Legislativa, Tetila tem atuado em defesa dos direitos humanos e da população indígena. Presidente da Comissão de Trabalho, Cidadania e Direitos Humanos, ele foi o autor da lei que criou o Fepati (Fundo Estadual para Aquisição de Terras Indígenas) com a finalidade de captar recursos financeiros para aquisição de terras particulares em áreas indígenas

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Funai confirma ataque de fazendeiros durante protesto de comunidade indígena

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17/02/2014                    19:35

 Tainá Jara

A Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmou ataques de fazendeiros a índios da comunidade Pyelito Kue Mbarakay, no município de Iguatemi, a 461 quilômetros de Campo Grande, durante protesto. Conforme publicado pelo conselho Aty Guasu, no dia 12 de fevereiro, os fazendeiros mandaram atacar e lançar tiros sobre os indígenas. 

A nota, publicada nesta segunda-feira (17), confirma também ameaças a servidores da Funai. “No último dia 13, foi comunicado oficialmente à sede desta fundação que produtores rurais bloquearam a entrada que dá acesso à área indígena Pyelito Kue e Mbarakay e ameaçaram a comunidade e um servidor público federal, no exercício legal de suas funções”. 

Os ataques ocorreram durante protestos por funcionamento de escola indígena na counidade e contratação de professores atender 50 crianças. Os índios afirmam que o prefeito de Iguatemi José Roberto Felippe Arcoverde, se nega a atender a demanda. 

Conforme o órgão, não foi registrado nenhum tipo de violência ou vandalismo por parte dos indígenas e que a Funai “encaminhou as reivindicações da comunidade indígena, tão logo as recebeu, aos órgãos competentes, tais como a Secretaria Municipal de Educação de Iguatemi e as forças de segurança pública”. 

Em informe publicado pelo Aty Guasu no dia 15 de janeiro, os índios relataram outros problemas enfrentados pela comunidade como a falta de atendimento à saúde, miséria, fome, ameaça de morte às lideranças indígenas e seis mortes indígenas Guarani Kaiowá por atropelamento. 

A área na qual está inserida a fazenda Cambará foi identificada como Território Tradicional Indígena, de acordo com estudo de delimitação publicado em Janeiro de 2013, e aguarda demarcação.

PAZ, DIÁLOGO E CONCILIAÇÃO NO CAMPO

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