quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Fogo subterrâneo: fenômeno assusta indígenas em Panambizinho

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19/09/2012            16:05

Dourados Agora/WM Divulgação

 



 Em contato com oxigênio, área pega fogo.

 Fenômeno conhecido pelos indígenas de Panambizinho como Ivy-Kay (fogo na terra) assustou a população naquela aldeia localizada no distrito de Dourados (MS). 

Ontem, um menino pescava tranquilamente quando ouviu uivos de um cão que tinha acabado de sofrer queimaduras graves. O garoto acionou lideranças, que se depararam com uma pequena área onde surgiram várias rachaduras que soltam uma fumaça esbranquiçada com alta temperatura e incendeia em contato com o oxigênio e o mato seco. 

 O cão não foi o único a ficar ferido. Conforme informações, pessoas que estiveram ali para ver o que estava ocorrendo, também queimaram os pés e os calçados. Segundo o agente de saúde daquela localidade, Reginaldo Aquino da Silva, fenômeno semelhante ocorreu ali há cerca de 40 anos.

 Ontem, alguns chegaram a suspeitar de que poderia haver uma válvula de escape de alguma fenda vulcânica, já que a região de Dourados estaria sobre estrutura semelhante. O fenômeno ocorre naquela zona de turfa (emaranhado de restos de vegetação que queima mesmo se houver umidade), de lençol freático rebaixado mediante técnica de agricultura conhecida como “espinha de peixe”.

 No local, há cerca de uma semana, indígenas teriam ateado fogo para limpar a área. O incêndio continuou abaixo da superfície, não encontrou água e, devido ao tempo seco, passou a consumir o material orgânico que, conforme o geólogo, vem se depositando há cerca de dez mil anos naquela localidade. 

Com a queima deste ‘humus’, sobra espaço na terra que acaba rachando e liberando os gases e fumaça. O geólogo diz que eles estão, no momento, em uma área de risco e que, se alguém pisar ali, pode sofrer queimaduras. Na superfície da terra, em contato com o oxigênio, o incêndio pode ainda se alastrar. 

Agora é esperar a chuva, para apagar o fogo subterrâneo que consome aquela área na Aldeia Panambizinho.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Líder indígena é encontrado morto dentro de rio na região de Bela Vista

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17/09/2012       08:05

 Elverson Cardozo

 O líder indígena Amilton Lopes foi encontrado morto neste domingo (16), dentro de um rio, próximo a aldeia de Pirakua, em Bela Vista, município que fica a 322 quilômetros de Campo Grande. 

A informação é da Aty Guasu, assembléia que reúne lideranças indígenas da região sul do Estado. Segundo comunicado oficial, Amilton Lopes era liderança indígena em nível nacional e internacional e, além disso, era porta-voz da Aty Guasu desde 1980. 

A causa da morte ainda é desconhecida. O indígena era uma das lideranças Guarani e Kaiowá que vinha sendo ameaçado de morte, segundo divulgou a assembléia, que cobra investigação policial. 

 A Polícia Civil de Bela Vista, que vai investigar o caso, informou que foi comunicada do fato hoje à tarde, mas o corpo de Amilton ainda não chegou à cidade. Segundo os policiais, o caso também foi comunicado à Funai (Fundação Nacional do Índio) de Antonio João.

sábado, 15 de setembro de 2012

Decisão do TRF1 libera obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás

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 15/09/2012          08:25

 Terra/DA

 As obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, que liga São Luís (MA) a Carajás (PA) foram liberadas com decisão tomada hoje (14) pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). 

O desembargador federal Mário César Ribeiro, presidente do tribunal, suspendeu a tutela antecipada, concedida em julho deste ano pela 8ª Vara da Seção Judiciária do Maranhão, que determinou a paralisação das obras. 

 O pedido de paralisação foi feito em ação civil pública ajuizada pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Centro da Cultura Negra do Maranhão (CCN) contra a Vale S/A e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em que as entidades alegaram que existiriam “vícios no processo de licenciamento ambiental referente à duplicação da Estrada de Ferro Carajás, fato que tem resultado em diversos danos ao meio ambiente e às comunidades afetadas”.

 As comunidades citadas na ação são o povo indígena Awa Guajá e comunidades quilombolas nos municípios de Anajatuba (MA), Arari (MA), Miranda do Norte (MA), Santa Rita (PB) e Itapecuru (MA). A Vale recorreu ao TRF1 alegando que não há irregularidade no processo de licenciamento ambiental e que a paralisação acarreta grande lesão à ordem pública.

 De acordo com o tribunal, a empresa avalia em R$ 40 milhões os prejuízos causados pela suspensão da obra. Segundo o desembargador, “não se pode desconsiderar a presunção de legitimidade dos atos administrativos perpetrados pelo Ibama, órgão que detém a competência e os dados técnico-científicos necessários para analisar e conceder as licenças ambientais pleiteadas”. 

Para o magistrado, há evidências de que o Poder Judiciário está interferindo indevidamente nas atividades da Administração Pública. O presidente do TRF1 conclui sua decisão dizendo que “o que fica evidenciado é que a paralisação das obras poderá ser potencialmente mais perniciosa ao meio ambiente e à coletividade em geral do que o seu prosseguimento”.

 De acordo com a empresa responsável pelas obras, o processo de licenciamento prevê criação de 8.645 empregos no auge das obras de expansão da ferrovia e de 1.438 novos postos de trabalho após o término das obras.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Prefeito de Paranhos acha que indenização para fazendeiros resolve conflito com índios

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14/09/2012            14:13

Éser Cáceres

 O prefeito de Paranhos, Dirceu Bettoni (PSDB), culpa o Governo Federal pelos conflitos fundiários entre índios e fazendeiros que colocam o município, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, a 477 quilômetros de Campo Grande, em destaque na imprensa. 

 “É ruim para a imagem da cidade, e nos prejudica muito economicamente. Mas é fácil solucionar, se o Governo Federal tomasse uma atitude”, resume Bettoni. O município tem pouco menos de 12 mil habitantes e depende da produção rural, que é desenvolvida basicamente em pequenas propriedades de economia familiar. 

Segundo dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), 73,2% das fazendas têm menos de 50 hectares. Mesmo assim, Paranhos virou palco de conflito fundiário porque, como boa parte dos municípios fronteiriços de MS, fica em terras tradicionalmente habitadas por povos nativos.

 A região foi ocupada pelos brancos com aval do poder público e à base da expulsão velada dos índios. Desde a promulgação da Constituição, o processo de demarcação das áreas indígenas para serem devolvidas aos povos indígenas se tornou uma verdadeira novela que envolve índios e fazendeiros e tem capítulos de violência, morosidade na Justiça e omissão do poder público. 

 Mil toneladas de mandioca 

 A presença indígena em Paranhos marca o perfil da cidade. Na praça em frente à Prefeitura, constantemente famílias inteiras de índios se aglomeram nas sombras do jardim aguardando atendimento da área de assistência social. “Aqui a gente faz o que pode.

 A Prefeitura gerencia o Cadastro Único para programas sociais como a distribuição de cesta básica, então eles nos procuram para acertar detalhes de documentos, por exemplo”, explica o prefeito. Mas, segundo Dirceu, a presença dos índios não se resume à dependência de programas sociais.

 “Infelizmente tem índios abandonados à própria sorte em algumas aldeias pelos órgãos que deveriam ajudar. Nós temos atendido da melhor forma possível, mas é pesado. Agora mesmo, estamos gradeando 250 hectares de terra para eles em uma área que funciona bem”, conta. 

 O prefeito se refere à aldeia Sete Cerros, na qual os índios, após receberem a posse da terra, passaram a produzir. “Na Sete Cerros eles produzem. Plantam milho, mandioca, feijão... Neste ano, eu sei que eles já venderam mais de mil toneladas de mandioca para uma fecularia.

 Os índios de lá são bem independentes e há uns dez anos produzem assim”, relata. Bettoni conta que nos últimos oito anos, desde que assumiu a Prefeitura ainda no primeiro mandato, o município tem auxiliado a lavoura dos índios sem receber apoio de nenhum outro órgão público.

 “Lá é muito tranquilo. Os índios produzem, vivem bem e trabalham mesmo em Sete Cerros. A gente ajuda na preparação da terra com nossas máquinas e combustível, porque a Prefeitura nunca recebeu nenhum litro de diesel seja de quem for para ajuda-los”, diz. 

 Tem que indenizar

  No entanto, o prefeito, que também é produtor rural, diz que não é possível o poder público simplesmente fechar os olhos para a situação dos fazendeiros que produziam nas áreas agora retomadas pelos índios.

  “A situação aqui depende apenas do Governo Federal tomar uma atitude que só pode vir dele. Se a terra é da União, o índio é tutelado pela União, então eles devem indenizar corretamente os proprietários que compraram as áreas legalmente e são donos”, analisa. 

De acordo com o prefeito, a decisão dos índios guarani-kaiowá de ‘retomarem’ áreas que já foram consideradas terras indígenas pelo Governo Federal e a instabilidade causada pela situação já prejudicam economicamente Paranhos. “É ruim. É prejuízo, porque o pessoal já vendeu o gado que estava lá na região, por exemplo, e muitos investimentos deixam de vir. 

Estou lutando para trazer uma usina com investimento milionário, e isso tudo atrapalha”, lamenta Dirceu. Apesar da situação, o prefeito peessedebista acha desnecessária a sugestão de intervenção federal. “Não vejo porque uma intervenção. Não temos insegurança aqui, temos uma instabilidade com essa situação.

 Mas não é caso de intervenção, é caso de tomar uma atitude e resolver”, argumenta. Ele nega que os fazendeiros estejam inflamados contra os índios. “Houve o episódio das declarações infelizes aí de uma pessoa, mas acho que foi no calor do momento, e algo isolado. Não representa o que a maioria dos produtores pensa. Agora, todos aqui precisam de uma atitude da União.

 Tem que ver certinho a terra que precisam, e indenizar logo os produtores. Isso evitaria todos os problemas”, pondera. Sobre os recentes relatos de novos ataques e intimidações contra os índios guarani-kaiowá que retomaram áreas na tekohá (lugar onde se vive, no idioma nativo) Arroyo Corá, o prefeito diz que a culpa direta pela situação também é do poder público federal. 

 "É claro que todos querem defender o que consideram seu. Se o fazendeiro é dono, ele tem que passar por lá para trabalhar e isso pode soar como intimidação. Mas a questão toda é que é muito fácil resolver, e só cabe à União resolver", reitera. Segundo Bettoni, caso o Governo Federal conclua as demarcações pagando valores justos de indenização para os fazendeiros que compraram as terras legalmente, não há motivos para aguardar novos conflitos. 

 Fronteira Agora, Reprodução 

 
 Dirceu Bettoni: 'Governo Federal precisa tomar atitude' 

O prefeito tem uma área de aproximadamente 70 hectares e, como fazendeiro, conta que é vizinho de uma área indígena. “São bons vizinhos”, conclui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Funai e União “esquecem” 1500 indígenas em distrito de Brasilândia

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10/09/2012              18:30
 Assessoria/EA

A comunidade indígena do distrito Debrasa, em Brasilândia (MS), 400 km de Campo Grande, deve receber ações de proteção social dos órgãos estatais. A Justiça acolheu os argumentos propostos em 2011 pelo Ministério Público Federal (MPF) e determinou, através de liminar, que a Fundação Nacional do Índio (Funai) realize estudo para obter informações sobre a comunidade, estimada em 1500 indígenas.
 
Um servidor da Funai deve comparecer ao menos dez dias por mês ao distrito para receber as demandas e prestar apoio. A União deve estabelecer serviço de saúde indígena no local. O estudo vai colher informações sobre os indígenas que moram na região, tais como número de pessoas; origem; vínculos com as aldeias; período de permanência no distrito; acesso ao registro civil e a benefícios previdenciários e sociais; dificuldades para retorno às aldeias de origem e acesso a alimentação e moradia. Os dados servirão de base para as ações sociais junto à comunidade.
 
Funai e União ignoram 1500 indígenas

Os índios trabalham na usina de açúcar e álcool Debrasa, nome que deu origem ao distrito de Brasilândia, a partir da fixação dos trabalhadores na região. Estima-se que 1500 indígenas, de várias regiões do estado, permanecem no distrito entre abril e dezembro, época da colheita da cana-de- açúcar.
 
O Ministério Público Federal ajuizou ação após ter recomendado a regularização da situação. A Funai não acatou a Recomendação e continuou não acompanhando a contratação de indígenas pela usina. A autarquia argumentou que a permanência dos indígenas no distrito é temporária, que somente presta assistência nas aldeias de origem e que a responsabilidade seria, portanto, da empresa contratante.
 
A União, que não acatou a Recomendação, ignorou a existência do distrito, argumentando que se tratava de uma “empresa particular sucroalcooleira”, que emprega mão de obra indígena para o trabalho na monocultura da cana-de- açúcar.
 
De acordo com o IBGE, Debrasa é um distrito do município de Brasilândia, onde existe a empresa de mesmo nome. Para o governo federal, o atendimento aos indígenas ocorria “possivelmente pela equipe de saúde contratada pela empresa”, evidenciando a falta de conhecimento sobre a situação.
 
Na ação, o MPF argumenta que o índio não deixa de ser índio porque está distante da aldeia de origem. “O simples fato do indígena residir fora da aldeia durante parte do ano não faz com que perca sua identidade, devendo ser garantido o acesso aos mesmos serviços destinados aos seus pares. É inconstitucional qualquer distinção entre índios, especialmente quando esta pode trazer prejuízos aos direitos que lhes são conferidos pela Constituição Federal e pela legislação vigente”.

Situação análoga à escravidão

O Ministério do Trabalho realizou inspeção em novembro de 2007 e constatou diversas irregularidades na empresa, que evidenciavam situações de trabalho precárias e degradantes, como falta de condições sanitárias no campo - não havia banheiros químicos, ausência de assistência médica de urgência e de local de repouso no horário das refeições e falta de proteção contra a chuva.
 
Era frequente até a falta de água potável. Os indígenas cumpriam uma jornada de trabalho de até dez horas por dia e havia atraso no pagamento do salário. Nos alojamentos não havia higiene, o lixo espalhava-se dentro e fora do quarto.
 
A alimentação também era precária, geralmente em quantidade insuficiente e de qualidade duvidosa. Os alimentos que ainda iriam ser consumidos não eram acondicionados, o que permitia contaminação por moscas e outros insetos.
 
Mesmo lidando com ferramentas cortantes, a maioria dos trabalhadores não havia sido imunizada contra tétano. Não havia equipamentos individuais contra picadas de cobra, situação comum nos canaviais.
 
Na época, a empresa foi notificada e resolveu os problemas, mas os órgãos estatais continuaram negando-se a atender os indígenas, o que agora será resolvido com a decisão proferida pela Justiça Federal.

Funai remarca terra para constituir primeira aldeia rural de Campo Grande

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10/09/2012              14:13

  Eliane Souza

E-mail: culturanativams@gmail.com


Até março do próximo ano Campo Grande vai ter sua primeira aldeia indígena rural reconhecida, a Água Bonita, na região do Jardim Anache. Na verdade, índios de cinco etnias já moram no local, porém não é terra reconhecida como indígena. 

Segundo lideranças, a falta da titularidade impede benefícios como posto de saúde e escola. Atualmente Campo Grande tem duas aldeias reconhecidas como terra da União e urbanas: a Marçal de Souza (bairro Tiradentes) e Darci Ribeiro (Jardim Noroeste). 

A Água Bonita será a primeira rural depois de oito anos de espera dos moradores. Para iniciar o processo de reconhecimento de terra indígena, o processo teve que passar primeiro pela Assembleia Legislativa, depois para a Procuradoria Geral do Estado e por último a nacional da Fundação Nacional do índio, esta que determinou que o local fosse remarcado para constar nos trâmites burocráticos.

 Na primeira etapa serão 14 hectares reconhecidos, mas a ideia é que, aos poucos, sejam quase 40 hectares. O líder indígena Nito Nelson, explica que embora mais de 100 famílias de cinco etnias (guarani, terena, kadiwéu, caiuá, guató) morem na Água Bonita, ela não é de fato uma aldeia, pois a terra não é reconhecida pela União.

 “Somos aldeia porque aqui moram índios, mas, na verdade, somos um grupo da zona rural. Daí ninguém nos atende porque não estamos no mapa”. Nito explica que o local passando a ser terra da União e reconhecendo a terra como sendo indígena, muitas melhorias podem vir para a comunidade. 

“Hoje não temos posto de saúde, escola segurança. Fica um jogo de empurra entre o governo do estado e a prefeitura e a gente aqui sem amparo”, queixa. Nito Nelson acredita que comunidade indígena receberá melhorias já partir de 2013.


 Nito Nelson acredita que comunidade indígena receberá melhorias já partir de 2013  


 De acordo com Nito, outros problemas também são enfrentados pela comunidade, pelo simples fato da terra não ser considerada indígena. “Temos violência. Nem as ruas daqui estão no mapa e não temos CEP. Quando manda carta, vai parar lá no Guanandi porque o CEP é de lá”, revela.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Índios 'retomam' mais uma área indígena em Mato Grosso do Sul contra portaria da AGU

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03/09/2012            19:00

  Éser Cáceres

 Mais uma área já declarada indígena pelo Governo Federal foi 'retomada' pelos guarani-kaiowá em Mato Grosso do Sul nesta segunda-feira (3). Até o momento os relatos são de que não houve confronto nem feridos. 

 De acordo com informações preliminares repassadas por índios da região, aproximadamente 400 pessoas participaram da ocupação em Potrero Guasu, que fica no município de Paranhos, a 477 quilômetros de Campo Grande. 

 Os índios são das etnias guarani-kaiowá e nhandevá. Segundo eles, a área da tekohá (espaço onde se vive, no idioma guarani) Potrero Guasu tem 4.025 hectares e foi declarada terra indígena desde 2000. 

 Como a demarcação foi questionada na justiça, os donos das fazendas instaladas sobre a tekohá continuavam com a posse da terra. 

 Onda de 'retomadas' 

 Os índios de Mato Grosso do Sul iniciaram no último dia 10 de agosto, com a ocupação de uma fazenda na tekohá Arroyo Corá, também em Paranhos, o movimento das 'retomadas', como estão chamando as mobilizações.

 Desde a última semana, os povos indígenas de MS prometem novas ‘retomadas’ de fazendas que funcionam nas áreas já consideradas terras indígenas em Mato Grosso do Sul. Eles protestam contra a publicação da Portaria 303/2012 da AGU (Advocacia-Geral da União), que é comemorada pelos ruralistas sul-mato-grossenses como uma forma de barrar as demarcações de terras indígenas no território estadual.

 A portaria deve entrar em vigor no próximo dia 24, mas recentemente o Ministro da Justiça disse em MS que vai pedir o adiamento do prazo. As lideranças indígenas consideram que a Portaria foi uma 'declaração de guerra do Governo Federal contra os índios' e a informação é de que os protestos pela revogação da Portaria devem se intensificar nos próximos dias.

 Enquanto os indígenas protestam, os fazendeiros comemoram a decisão do Governo Dilma. Eles consideram as ocupações das fazendas pelos índios como atos criminosos de invasão. Segundo a Famasul (Federação da Agricultura de Mato Grosso do Sul), caso a portaria seja respeitada, mais de 90% das demarcações em andamento em MS podem ser questionadas. 

 Com a normatização proposta pela AGU, o Governo Federal passa a seguir o entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) no julgamento do caso Raposa Serra do Sol como modelo para atuação dos advogados públicos e procuradores em processos judiciais envolvendo a demarcação de terras indígenas em todo o país. 

Golpe nas demarcações

  Para as lideranças indígenas sul-mato-grossenses, a Portaria 303 seria a prova de que o Governo Dilma teria ‘pactuado com a bancada ruralista’. Segundo Lísio Lili, membro do povo terena, “se a Portaria não for revogada, o Estado Brasileiro está declarando guerra aos povos indígenas”. 

 Segundo a Advogacia-Geral da União, no entanto, a Portaria 303 é uma tentativa de assegurar a estabilidade jurídica em ações sobre o tema e evitar que as demarcações sejam questionadas na justiça, enrolando o processo durante anos. Dois pontos básicos definidos na decisão específica do Supremo no caso Raposa Serra do Sol interessam aos representantes do agronegócio.

 Com a Portaria, há uma brecha para proibição de novas demarcações, além de permitir a revisão de processos administrativos sobre terras indígenas consideradas inadequadas à decisão do STF relativa à demarcação da terra indígena no estado de Roraima.

 Os índios reclamam que não foram ouvidos pelo Governo Federal antes da elaboração do documento, e acusam a AGU de ‘ceder aos interesses do agronegócio predatório’.

 Para eles, a Portaria é um ‘golpe nas demarcações’. A Famasul admite que, para o setor ruralista, a Portaria 303 é uma conquista. “Estão fomentando as invasões para derrubar a portaria. Estão contra o arcabouço jurídico da nação.

 Se seguirem o que está na Portaria 303, mais de 90% das demarcações em Mato Grosso do Sul são totalmente ilegais”, explica o presidente da entidade, Eduardo Riedel.

sábado, 1 de setembro de 2012

RS: por cotas, indígena se forma em faculdade de enfermagem

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  01/092012             22:13


 Denize planeja atuar como enfermeira em sua aldeia. 
Denize planeja atuar como enfermeira em sua aldeia. Foto: Bruno Felin/Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra 
 Foto: Bruno Felin/Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra 

 Denize planeja atuar como enfermeira em sua aldeia Foto: Bruno Felin/Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra A primeira índia beneficiada pelo sistema de cotas a concluir um curso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi ovacionada pelos colegas neste sábado, durante a cerimônia de formatura da graduação em Enfermagem. 

 Mesmo sem saber falar português fluentemente, a índia caingangue Denize Leticia Marcolino mudou-se em 2008 para a capital gaúcha e, com o apoio da vice-pró-reitora da UFRGS, Andréa dos Santos Benites, iniciou o curso. Depois de formada, Denize relembra as dificuldades da época em que iniciou os estudos. 

"Tinha medo de ficar sozinha, mas nunca pensei em voltar. Era uma coisa que eu queria muito", revela ela, que nega ter sofrido preconceito dentro da universidade. Durante o curso, a adaptação aconteceu graças aos amigos. 

Denize aprendeu a sentar à mesa e usar garfo e faca - pois só comia com colher - e, aos poucos, recuperou os cinco quilos perdidos nos primeiros semestres. Sofria para entender o significado de algumas palavras das primeiras provas, mas concluiu a graduação sem reprovações e com nota máxima no trabalho de conclusão de curso. 

"Ela trouxe a realidade indígena para dentro da universidade e sempre pensou em levar o conhecimento de volta. Fico extremamente feliz por esse compromisso social dela", diz a orientadora do trabalho final, Cláudia Junqueira Armellini. Com o diploma, Denize pretende voltar para a aldeia Guarita e atuar como enfermeira.

 Ainda assim, Osmar Maurício Sales, representante do cacique Caingangue, explica que "voltar para a aldeia faz parte do código de ética assumido antes de partir para os estudos". "Quero trabalhar na Guarita. Por falar caingangue poderei ajudar mais do que qualquer outro enfermeiro. 

Os índios, ao procurar ajuda nos postos de saúde, enfrentam dificuldades de comunicação e acabam nem sempre bem orientados", diz a enfermeira. A UFRGS dedica 10 vagas por ano aos indígenas. 

São as lideranças das aldeias, em conjunto com autoridades da universidade, os responsáveis por escolher os cursos. "Selecionamos de acordo com as necessidades das aldeias, mas saúde e educação costumam ser os focos principais", explica Sales. 

Os cotistas recebem auxílio moradia, transporte, creche, material escolar, acompanhamento pedagógico e uma bolsa de R$ 460. "Estes são alguns fatores que buscam melhorar o tempo de permanência e evitar a evasão. 

Temos que valorizar o ingresso por medida compensatória, mas queremos que os alunos se formem, se não, a redução da desigualdade social não terá efeito", ressalta Edilson Amaral Nabarro, secretário de Assistência Social e presidente da Comissão de Acesso e Permanência indígena da UFRGS. Além das barreiras culturais e econômicas, os índios precisam compensar com estudo o baixo nível da educação básica adquirida ao longo da vida. 

As aldeias oferecem ensino fundamental, e quem segue adiante precisa buscar em cidades próximas escolas públicas que tenham ensino médio. "Vale lembrar que as áreas de gargalo atingem todos os alunos. Muitos têm problema com cadeiras de cálculo, por exemplo. 

A renovação recente, por mais 10 anos de políticas de cotas na UFRGS, busca a retenção desses alunos, afinal, uma política inovadora não encontra todas as condições de êxito no seu início", conta Nabarro. 

 Outro problema marcante na trajetória da primeira indígena cotista graduada na federal gaúcha era a saudade. "A cultura do índio é de proximidade total da família. Ficar quatro anos distante é difícil para nossa etnia", relata Sales. 

Os índios também são exímios observadores e de personalidade tímida, todas características marcantes em Denize. "Tive que me adaptar às diferenças. Ir apenas nas férias para casa era muito difícil. 

Foi a primeira vez que fiquei tanto tempo longe de casa e que falei apenas português, mas nunca pensei em desistir", lembra. De acordo com dados de 2011 da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior, os indígenas representavam 0,93% do total de alunos nas federais. 

No Sul do País, o índice cai para 0,38%.