segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Comoção e choro no velório de índio morto ao buscar filho de 4 anos


31/08/2015                       09:28

  Confronto entre indios e fazendeiros em Antonio João - MS

  Antônio Marques, enviado especial a Antônio João 



Comoção entre os índios ao chegar o caixão do patrício Simeão (Foto: Marcos Ermínio, enviado especial a Antônio João) 
Depois de três horas de viagem até Antonio João, a equipe do Campo Grande News chegou a cidade no início da manhã deste domingo (30), sob um clima de tranquilidade, depois dos conflitos ocorridos nas fazendas Barra e Fronteira, ocupadas pelos índios Guarani Kaiowá desde a semana passada, que culminou na morte do indígena Semião Fernandes Vilhalva, de 24 anos. 


Índio chora a morte de Simeão durante velório (Foto: Marcos Ermínio)


O momento da abertura do caixão em que estava o corpo dele foi a cena mais comovente de ontem. Semião era casado com Janaína, de pouco mais de 20 anos de idade, e deixou uma criança de 4 anos, filho que ele teria tentado defender, mas antes de encontrá-la na invernada, foi atingido por um tiro no rosto, que saiu na nuca, caindo às margens do córrego estrelinha, próximo da sede da Fazenda Fronteira. 


A índia Leni, avó e mãe do bebê ferido com tiros de borracha, retirando a mortalha para ver o rosto de Semião (Foto: Marcos Ermínio)


O corpo de Semião chegou a sede da Fazenda Cedro, a cerca de 9 quilômetros da cidade, por volta das 14 horas da tarde desse domingo. Em seguida, cerca de 50 indígenas seguiram caminhando sob sol forte e temperatura acima dos 33ºC, por cerca de 40 minutos até chegarem a sede da Fazenda Fronteira, local em que o índio foi morto. 

  Inicialmente, os índios queriam velar o corpo na sede da fazenda, porém o local está sob proteção da Força Nacional e do Exército. No momento, houve tensão entre os indígenas e os policiais, até que aceitaram a proposta do capitão da Força Nacional, que recomendou que eles velassem o corpo na casa do outro lado do córrego, local em que estavam os familiares da vítima. 


O irmão Mariano Vilhaça observa o rosto de Simeão (Foto: Marcos Ermínio)


A chegada do caixão no local foi uma cena muito triste e que emocionou a todos, principalmente ao retirarem a tampa e revelar o rosto do rapaz de 24 anos, mais um na estatística de mortes na luta pela terra, segundo nesta área em litígio há mais de 10 anos. As três pessoas da equipe do Campo Grande News, foram os únicos não índios a presenciar a comoção dos familiares e amigos naquele momento. 

Marcada pela simplicidade dos indígenas, o caixão foi colocado em uma varanda da casa sobre um banco de madeira, ao lado de um galpão onde fica guardado o sal e o calcário da fazenda. Por alguns minutos a esposa do índio morto chorou desesperada ao vê-lo no caixão. O filho não estava próximo no momento. A cena é a mesma, sendo índio ou branco, a despedida de um “guerreiro”, como diz os índios, é algo que choca, pela brutalidade. 

O corpo de Semião foi velado durante toda a noite deste domingo, quando aconteceu uma reza durante a cerimônia de despedida e o enterro deve acontecer no mesmo local em que ele foi morto na tarde desta segunda-feira. 


  a esposa Janaina chorou o tempo todo ao ver o rosto do marido Semião no caixão (Foto: Marcos Ermínio)


Durante o período da tarde deste domingo em que o Campo Grande News permaneceu entre os índios não observou qualquer situação de hostilidade por parte dos indígenas, mas sim a preocupação de um povo na tentativa de se defender para evitar mais mortes e sedentos por divulgar a versão deles dos fatos, como disse a índia Leni, avó e ao mesmo tempo mãe da pequenina Analieni, ferida com duas balas de borracha, uma nas costas e outra na nuca, “nós queríamos o diálogo e não o confronto”, ao lembrar do conflito ocorrido no sábado.

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