terça-feira, 30 de abril de 2013

Aldeias Urbanas

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30/04/2013         20:00

MPF/MS

E-mail: culturanativams@gmail.com

Índios, em busca de uma vida melhor, foram aglomerados nas cidades. MS teve a 1ª aldeia urbana do Brasil.

 Marçal de Souza, 1ª aldeia urbana do país.

Em busca de melhores condições de vida e oportunidades de trabalho, os indígenas de Mato Grosso do Sul começaram a sair das áreas de origem para a periferia dos centros urbanos. 

O movimento começou a partir de 1960 mas intensificou-se na década de 1990. Atualmente, existem cinco aldeias urbanas em Campo Grande, capital do estado: Marçal de Souza, Água Bonita, Tarsila do Amaral, Darci Ribeiro e a comunidade indígena do Núcleo Industrial. Essas áreas são basicamente conjuntos habitacionais horizontais, bairros comuns da periferia. Marçal de Souza é a primeira aldeia urbana do Brasil e foi construída em meados de 1990. 

Fica no Bairro Tiradentes, periferia de Campo Grande. O nome homenageia o líder Guarani assassinado em 1983. O local, que conserva algumas características indígenas como a oca, abriga famílias das etnias guarani, kadiwéu, ofayé, xavante e terena, sendo desta última a maioria da população. 

Os indígenas vieram principalmente dos municípios de Miranda, Aquidauana e Sidrolândia. A área hoje ocupada pelos índios – cinco hectares – foi conquistada depois de muita luta. O espaço foi doado em 25 de janeiro de 1973 pelo então prefeito Antônio Mendes Canale para Fundação Nacional do Índio (Funai).

A área só foi ocupada pelos índios em 1995. Após muita pressão da comunidade, a prefeitura inaugurou 163 casas de alvenaria, cujos telhados lembram a disposição das aldeias em formas de círculos. 

  Água Bonita 

Água Bonita foi a segunda aldeia urbana criada em Campo Grande e está localizada no Bairro Vida Nova III. Fundada em 14 de maio de 2001, o local começou a ter características de aldeia a partir da criação da Associação dos Índios Kaguateca Marçal de Souza em 1987, quando começou a cobrar da Prefeitura de Campo Grande melhor qualidade de vida para os índios que viviam na cidade. 

A aldeia urbana foi fundada com uma área de 11 hectares, sendo que oito deles foram destinados para o uso dos índios e os outros três hectares para reserva ambiental. 

No local, moram indígenas das etnias Guarani, Kaiowá, Kadiwéu e Guató, mas a maioria também é composta pela etnia Terena. A população da Água Bonita sobrevive principalmente da comercialização de frutas em feiras livres e na feira indígena localizada próximo ao Mercado Municipal de Campo Grande. 

  Tarsila do Amaral 

Em ruas asfaltadas, no Bairro Vida Nova III, em Campo Grande, está localizada a aldeia urbana Tarsila do Amaral. À primeira vista, é difícil acreditar na existência de índios na região, diante de casas de alvenaria que estão distantes da aparência tradicional de uma comunidade indígena. 

Esta aldeia foi criada em 9 de maio de 2009 e fica ao lado da comunidade Água Bonita, segunda aldeia urbana criada em Campo Grande. A ocupação da área começou pouco antes, quando Alicinda Tibério – presidente do Conselho Municipal Indígena e uma das líderes da comunidade – e mais 30 pessoas se instalaram no local.

“Ficamos no barraco no máximo dois anos”. Atualmente, vivem na comunidade cerca de 400 pessoas. Dar aos três filhos a oportunidade de estudo e uma vida melhor. Em busca deste sonho a líder indígena procurou um lugar onde os índios da cidade pudessem viver juntos, como nas aldeias.

“’A minha preocupação eram meus filhos que ainda moravam lá. Se eu os levasse para um bairro comum, eu não conseguiria educar do jeito da minha cultura, do meu modo”, conta. Com as casas construídas e a comunidade Tarsila do Amaral instalada, os filhos de Alicinda vieram morar com ela. 

Eles tiveram dificuldade de adaptação, devido à diferença cultural entre os indígenas e os brancos. Mesmo assim, Alicinda fez questão de permanecer com os filhos. “Pensava na educação deles”. Conquistas desde sua criação e carências da comunidade são rotinas constantes “Conseguimos trazer nossos filhos pra cá e estão todos estudando agora”. 

Alicinda afirma que o objetivo principal da vinda para a cidade foi cumprido. Ela só reclama que as escolas são muito distantes do bairro e que a comunidade precisa de uma educação distinta para os índios.

“Nós lutamos muito por uma escola diferenciada, que ensine a nossa língua e que seja mais perto da comunidade. O Conselho Municipal criou um plano buscando uma educação diferenciada para os índios”. Com relação à saúde, a comunidade é assistida pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai).

O atendimento é feito por meio de agendamento e uma ambulância busca os índios na comunidade. Mas, de acordo com a líder, o atendimento não é 24 horas por dia. 

“Alguns momentos deixa a desejar, ele devia atender as 24 horas. A gente não escolhe a hora que vai ficar doente”, reclama. 

  Darcy Ribeiro

A comunidade indígena Darcy Ribeiro é a terceira aldeia urbana criada em Campo Grande (MS). Ela fica no Bairro Jardim Noroeste, periferia da capital, e foi inaugurada em 19 de abril de 2007. A comunidade conta com 98 casas, onde vivem 120 famílias das etnias terena, guarani, kaiowá e kadiwéu. 

Antes de conquistarem o espaço, os índios já viviam em Campo Grande, “de favor” em casas de parentes. O cacique Vânio Lara, 48 anos, ocupou o local junto com mais 20 famílias. 

Sua aldeia de origem é Lagoinha, em Aquidauana. Depois de uma briga judicial com a prefeitura e até uma ordem judicial de despejo, encarada com resistência, os indígenas conquistaram o espaço. Vânio conta que a busca por uma educação melhor para os filhos levou as famílias a sair de suas aldeias de origem.

“Faltava para nossos filhos o acesso à educação. Terminava o colegial e tinha que enfrentar o canavial, a fazenda. Nós não tínhamos outra forma para ingressar nossos filhos, principalmente na faculdade”, conta. 

Um dos atuais objetivos da comunidade é a instalação de um Centro Infantil de Educação (Ceinf) para as 350 crianças indígenas da comunidade. “Estamos buscando essa melhoria junto ao Poder Público municipal e estadual, para poder trabalhar não somente a educação mas também a língua indígena, pois ela não pode morrer”. 

Na comunidade, existem professores bilíngues qualificados para dar aulas. “Estão só esperando essa oportunidade do poder público”, finaliza.

  Saúde 

A comunidade Darcy Ribeiro sofre com a precariedade do atendimento à saúde. Quando necessitam, os indígenas tem de ir ao posto de saúde do bairro, que já recebe a demanda do restante dos moradores. 

Algumas vezes, os índios são encaminhados para postos de saúde de outros bairros “A gente vem cobrando da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) para atender as demandas dos aldeamentos urbanos. Nos postos também tem a dificuldade da língua, para entender o idioma do índio. 

A comunicação fica difícil”, reclama o cacique Vânio. Mesmo ainda faltando uma creche específica para as crianças indígenas e atendimento de saúde por parte da Sesai, a avaliação é positiva na visão de Vânio. 

“Ela melhorou 80% no aspecto geral. Atribuo isso principalmente ao desempenho da comunidade, no sentido de que existe o diálogo para buscar melhores condições de vida. Isso que nos fez ter um avanço”, acredita. 

 Vânio define a vida na aldeia urbana como boa. “Porque a gente vê nossos filhos na escola. É o que todos os pais sonham, em ver seus filhos na escola, estudando, para criar o caminho deles”. 

  Cultura indígena – “A língua está morrendo, isso é quase a mesma coisa que matar o índio” 

Fiéis à cultura indígena, os habitantes das aldeias urbanas de Campo Grande tentam manter viva sua identidade e cultura, mesmo estando longe de suas aldeias de origem. Um dos aspectos mais fortes da cultura indígena é a língua. 

Eles lutam para manter vivo o idioma e repassá-lo para as novas gerações. “É uma tradição que vem de pai para filho, de geração. Aqui nós lutamos para não deixar a língua morrer. As crianças conhecem a língua, os pais ensinam o idioma”, relata o cacique Vânio Lara, da aldeia urbana Darcy Ribeiro. Alicinda Tibério, da aldeia Tarsila do Amaral, ressalta a importância em não deixar que a língua se perca.

“A língua está morrendo, isso é quase a mesma coisa que matar o índio”, desabafa.

  Espírito de união e respeito a cultura 

De acordo com Vânio Lara, na comunidade indígena Darcy Ribeiro o respeito aos mais velhos é cultivado. Na comunidade, é comum entre eles a realização do chamado “conselho do ancião”, que consiste em ouvir a opinião do índio mais experiente da aldeia a respeito de algum assunto delicado. 

“O conselho dele é para nós um fortalecimento, porque através dele nós vamos olhar o mundo lá fora com mais cuidado, pois o senhor de idade já passou por vários caminhos difíceis”, conta Vânio Lara. O significado de união para os índios vai além de estar junto, representa uma cultura, onde um cuida do outro.

É daí que surge o anseio, mesmo longe da aldeia de origem, em manter-se unidos no centro urbano. “A vontade de permanecer juntos é da nossa cultura, o índio cuida um do outro. A cultura do índio é estar junto., costumamos falar que o índio cresce espiritualmente pela confiança”, ressalta Alicinda. 

Trabalho A principal fonte de renda dos índios que moram na cidade vem da fabricação e venda de artesanatos. A comercialização desses produtos é feita na Casa do Artesão, Mercado Municipal e na Economia Solidária, em Campo Grande. 

Além do trabalho cultural, há índios que trabalham em indústrias e comércios locais.

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