segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ex-pajé' estreia no Festival de Berlim com leitura de manifesto indígena

19/02/2018                  13:17


'Documentário de Luiz Bolognesi aborda o desaparecimento da etnia Paiter Suruí, de Roraima. Manifesto assinado por 28 lideranças e 15 organizações indígenas protesta contra violência e racismo


Por;  paulodonizetti publicado  em 17/02/2018     17h51





REPRODUÇÃO

Último suspiro: 'Filme testemunha os últimos minutos de existência de uma cultura milenar cheia de sabedoria'


O Festival de Cinema de Berlim, um dos mais importantes da Europa e do mundo, exibe neste sábado (17) o documentário Ex-pajé, que apresenta um dos dramas dos povos indígenas contemporâneos. Escrito e dirigido por Luiz Bolognesi (diretor da animação Uma História de Amor e Fúria e roteirisa de Bicho de Sete Cabeças), o filme é contado a partir da história de Perpera, um índio Paiter Suruí que viveu até os 20 anos num grupo isolado na floresta onde se tornou pajé, mas que passou a viver intensos conflitos internos depois de ter tido contato com os brancos, especialmente com pastores evangélicos que “proclamaram” na comunidade que os atos e saberes indígenas são “coisas do diabo”. Apesar de hoje se dizer evangélico e se definir como ex-pajé, Perpera continua tendo visões dos espíritos da floresta.

A sessão do longa-metragem, prevista para às 20h (horário de Berlim), deve contar com a leitura do Manifesto de Povos e Lideranças Indígenas do Brasil, que critica o etnocídio e invoca um país com mais tolerância e respeito. 

O documento assinado por 28 lideranças e 15 organizações indígenas declara: "Hoje atravessamos muitas crises, ecológica, econômica, política, a nossa frágil democracia foi atacada e os territórios indígenas estão sendo invadidos e saqueados. Junto com o ferro e o fogo, vem a conversão racista. 

Trocam as rezas pela bíblia e as medicinas por aspirinas. Epidemias de depressão provocam os maiores índices de suicídio do mundo manchando de sangue as lindas florestas do Brasil".

Para contar essa história de extermínio da cultura indígena, o longa-metragem utiliza a linguagem do Cinema Direto, um gênero do documentário que procura captar a realidade com o mínimo de intervenção possível. Ainda sem trailer nem cartaz para o mercado brasileiro, a obra ainda não tem previsão de estreia nos cinemas. 

É possível apenas assistir a um extrato (com legenda em inglês) no site da Berlinale, no qual o ex-pajé Perpera afirma que, depois que os brancos evangélicos chegaram em sua comunidade e anunciaram que as crenças e rezas tradicionais eram coisas do demônio, todos os indígenas passaram a ignorá-lo até que ele aceitasse frequentar a igreja.

"Num momento em que as casas de reza indígenas estão sendo queimadas e os pajés demonizados pela violência evangélica, ter o filme Ex-Pajé estreando em Berlim significa levar as vozes dos espíritos da floresta mundo afora através do cinema", afirmou o diretor e roteirista Luiz Bolognesi. 

Para a produtora do longa Laís Bodanzky, este é o registro do último suspiro de uma cultura milenar: "O mais comovente neste cinema verdade que o Luiz Bolognesi se propôs a filmar com toda a delicadeza que o tema exige é a transformação de nós espectadores em testemunhas dos últimos minutos de existência de uma cultura milenar cheia de sabedoria que não foi registrada na história deste planeta e nem passada para as novas gerações. O último suspiro".

Ex-pajé será exibido na Mostra Panorama, paralela à competição oficial, que traz outros três documentários brasileiros: Aeroporto Central, do diretor cearense Karim Aïnouz, e Bixa Travesty, da dupla Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

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